quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O bando dos mata-velhos




Muito se tem falado dela, por estes dias, quase sempre mal e, em certos e determinados casos, também por mal.
Compro a preocupação com o envelhecimento da classe docente, tal como compro a preocupação com o envelhecimento de todo e qualquer grupo ou classe profissional e da sociedade em geral. Só o envelhecimento do vinho do Porto é que não deve causar preocupação a ninguém. Todavia, deste ponto até ao ponto a que tem sido levado o tema vai uma graaaaaaaaaaaaaaaande distância, quer na extrapolação quer nas intenções.
Toda a gente sabe por que motivos não se rejuvenesce a classe docente: os mais velhos estão a ser sugados até ao tutano e os mais jovens não são burros. É uma profissão demasiado castigada, demasiado explorada e muito pouco respeitada por quem de… torto. Portanto… Contudo, há por aí um certo coro grego (de gente mal autorizada) que, à boleia desta fatalidade, tal como fez Maria de Lurdes Rodrigues (à bruta) pretende reerguer a hostilidade pública e a desconfiança relativamente à competência dos professores, já não em geral, mas em particular: os mais velhos são agora o alvo dos franco-atiradores modernaços, dos embaratecedores da Escola Pública, daqueles que a veem como despesa, como desperdício. É a ideia que se faz passar quando se sugere que, dentro de uma década, o sistema estará purgado dos “instalados”, daqueles que resistem à mudança, daqueles que… apenas servem para dar secas aos putos, que já não os entendem nem querem entender, que não entendem nem querem entender os novos paraísos pedagógicos, povoados de aves renascidas das cinzas. No fundo, o que esta gentinha, herdeira de Dona Lurdes, anda a dizer à sociedade é mais ou menos isto: “Muito do esforço que tem sido feito para modernizar a Escola tem esbarrado na inércia deste corpo docente envelhecido, caquético, empedernido”. E o cidadão comum entende as coisas mais ou menos assim: "É claro que os putos do século XXI estão a ser castrados pelos velhotes dos meados do século passado. Se não são totalmente culpados pela desmotivação e pelo insucesso dos nossos meninos, têm, pelo menos, a maior parte da culpa”.
Sempre pensei que, com a idade, um professor ia ganhando experiência, tato, visão periférica, olho clínico… sageza. Mas estava equivocado, rotundamente enganado. Afinal, a partir dos cinquenta anos já somos… empecilhos, aborrecedores de jovens, produtores de tédio, castradores de futuros promissores, forças de bloqueio… enfim, trastes velhos e sem serventia. Eu só não me atiro já pela janela porque estou no rés-do-chão (e porque os cabecilhas do bando dos mata-velhos ainda são mais velhos do que eu).
Respeitoso manguito!!!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Estado de nojo



AVISO -  Este post pode agradar às pessoas que não gostam de mim.

No pretérito dia 6 de abril de 2012, às 20 horas, 24 minutos e 14 segundos (ainda não tinha aderido à Via Verde), terei passado sob um daqueles pórticos das antigas SCUT (“FORTUNHO”, ironicamente). De certeza que não me apercebi, pois, caso contrário, teria sorrido para a fotografia. Não ponho em causa tal facto. Porém, já não posso dizer o mesmo do que sucedeu depois.
Na semana passada, quatro anos depois, sem mais nem porquê, na mais completa das tranquilidades e das inocências, recebi duas cartas das Finanças subordinadas a esse tema. A dita portagem, no valor inicial de 2 euros, crescera para 16,36 euros. Sentei-me diante do computador e paguei imediatamente. Afinal, se tal aconteceu mesmo (apesar de jamais ter sido notificado), a penalização, apesar de oito vezes superior à portagem, pareceu-me justa. “Anda, patego, abre os olhos!”, pensei cá para mim. Estava longe de adivinhar o que o destino me reservava.
Hoje, chegado a casa depois de uma manhã inteira a ensinar e a aturar catraios, mal pago, muito pouco reconhecido, nada respeitado pelo Estado (o meu patrão), dei de caras com outra carta das Finanças. “Assédio fiscal ou simples terrorismo?”, perguntei aos meus botões (cujo IVA já paguei). Era o segundo ato da mesma peça, que, afinal, tinha um desfecho “trágico”. O que eu pensara ser um mero ajuste de contas, era, na verdade, um dramalhão de faca e alguidar. Feito ao bife!!!
Depois da entediante leitura das habituais ameaças com que o MF nos cumprimenta, fiquei a saber que a referida infração deu origem a um processo de contraordenação do qual resultou, por obra e graça do Estado Santo, uma coima no valor de 88, 25 euros (oitchentcha e oitcho, como diria Jesus, o Jota Jota). Soma: 104, 61 euros!  Cinquenta vezes mais! FIM DO TOM JOCOSO!
Este Estado ladrão é pior que os ladrões de estrada. Este Estado (chulo) incute nos cidadãos cumpridores a íntima vontade de fugir aos impostos, e de o fazer com um “legítimo” sentimento de justiça, uma justiça que, definitivamente, a máquina exploradora do Ministério das Finanças não conhece. Mete-me nojo! 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

David Justinho



Já nem sequer tenho pachorra para comentar o que diz e muito menos o que sugere. Estas são as derradeiras palavras que dedico a esta figura.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Good Morning, USA!



     Desde a retoma das minhas doces hostilidades, após o longo (mas merecido) descanso de agosto e de parte de julho, o Bravio triplicou o número daquilo a que sói chamar-se “visualizações de página”. Nos primeiros dias ainda pensei ser um caso típico de saudades. Também pode ser, mas há algo mais: a multiplicação deve-se aos meus novos leitores, “vindos” de… bué longe. E já lá vão 23 dias consecutivos de "reinado".
Na verdade, o número de “visualizações de página” com origem cá no retângulo continua tal como estava (os mesmos cuscas de sempre). O acréscimo vem todo (todinho mesmo) dos States, que representam atualmente três quartos do total de visitas do meu bloguinho provinciano.  
Serve, pois, o presente post para dar as boas-vindas aos meus aficionados “americanos” (que são, de certeza, tão portugueses como eu) e para lhes dizer que é um orgulho recebê-los diariamente neste benévolo antro de saudável maldade.
Sintam-se à vontade! A casa é vossa! 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Procura-se assistente operacional



É óbvio que o grande culpado — para além da Dona Crise Costas Largas Peitos Pequenos — é o patrão sovina (o MEC), que anda cartelizado com o seu cunhado, o MF. Juntos, têm um plano maquiavélico para esmifrar as escolas. Todavia, os professores (eu também me incluo no lote) não estão isentos de culpas, pois, de ano para ano e de Ana para Ana, embora contra vontade, têm açambarcado funções, não só dos assistentes operacionais mas também dos funcionários administrativos. Temos andado um tanto ou quanto gananciosos, confesso, e com a mania de que podemos fazer tudo e de tudo!
Parece que já não dá para disfarçar. Os que outrora falavam andam agora calados, mas os que andavam calados (os encarregados de educação) vêm agora, todos os dias, aos telejornais, dizer que o rei está nu e sem quem lhe pegue na padiola para o levar. Não há dia em que uma escola desamparada não faça as delícias parangonais. Parecem cogumelos outonais a brotar. A coisa está… Enfim, a demanda de  assistentes operacionais ameaça rivalizar com a caça aos Pokémons.

O que falta saber é o seguinte:
1-      O mal está uniforme e democraticamente dividido por todas as aldeias?
2-      Há Filhos de Cima e enteados de baixo?
3-      Neste caso, é possível saber se os Filhos de Cima compraram algum pack pedagógico com direito a brinde e se os enteados de baixo são gente ordinária e refratária que teima em fazer as coisas à sua maneira?

É matéria, creio eu, que merece uma vista de olhos. Eu não tenho meios para tal, mas há por aqui (blogosfera docente) quem, com algum empenho, pode lá chegar, se quiser. Fica a sugestão. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Erros e falta de rigor — Santana Castilho


Não será difícil admitir que a Educação é um instrumento ímpar, que não único, para promover o progresso social, sobretudo quando se calcula que 228 milhões de crianças continuam, em todo o mundo, sem escola e que 400 milhões a abandonarão sem qualificação primária, seja porque tiveram o azar de nascer num sítio e não noutro, seja porque nasceram mulheres em vez de homens, seja ainda porque a guerra lhes caiu em cima. Os conhecimentos, as competências que por eles se adquirem e, mais que tudo, o carácter que a escolarização formal ajuda a moldar em cada ser humano contribuem, definitivamente, para o sucesso dos indivíduos e das nações. Neste quadro, os instrumentos de avaliação educacional e de estudo comparado dos resultados da Educação, independentemente das críticas que podemos aduzir à forma como demasiadas vezes são usados para impor políticas e à tendência para tudo medir e expressar em números, constituem referências importantes para compreender o passado e programar o futuro, desde que os interpretemos com rigor. Ora interpretar com rigor começa, elementarmente, por conhecer, antes de usar parangonas que enchem os olhos, as metodologias dos processos e as unidades em que os conceitos se exprimem.
No passado dia 15, em Bruxelas, Ángel Gurría, secretário-geral da OCDE, apresentou o Education at a Glance 2016, um relatório detalhado sobre os sistemas educativos de 46 países (35 membros mais 11). São 505 páginas na versão inglesa ou 543 na francesa, complexas de analisar, pela extensão, pela profusão de quadros estatísticos e pela necessidade de os relacionar e cruzar, para relativizar e contextualizar conclusões. Não obstante, no mesmo dia, na hora seguinte, a imprensa escrita e falada veio a terreiro com afirmações de peso, mas infelizmente erradas ou pouco rigorosas. O maior erro, cometido em jogral pelo Jornal de Notícias, Negócios, Sábado, Observador e SIC Notícias, pelo menos, foi dizer que o investimento público em Educação, excluído o ensino superior, aumentou 33% em Portugal entre 2008 e 2013, de acordo com o relatório em análise. Tal afirmação constitui um erro grosseiro, que o Education at a Glance 2016 não comete. Em 2008, o PIB português cifrou-se em 178.872,6 milhões de euros e o investimento público em Educação representou 4,1% desse PIB. Em 2013 o investimento público cresceu uma magra décima (4,2) em termos percentuais. Mas, nesse ano, o PIB caiu para 170.269,3 milhões de euros. Logo, o investimento público desceu entre 2008 e 2013, em vez de ter aumentado os 33% propalados. Na pressa de falar sem analisar, a imprensa não se deu conta de que os números citados pelo Education at a Glance 2016 somam investimento público e investimento privado. Uma coisa é o que o que se consagra à Educação em sede de OE, outra coisa é a soma disso com outras fontes de financiamento. Por exemplo, do universo total dos alunos que frequentam os 2.633 colégios privados, 75% são integralmente financiados pelas famílias. Por exemplo, há financiamento da Educação com origem na União Europeia. Ou seja, em termos globais, a provisão do ensino tem custos relevantes para além daqueles que o Estado suporta, como é o caso, ainda, entre outros, dos materiais e manuais escolares, transportes, alimentação, “explicações” e actividades de investigação e desenvolvimento.
Por outro lado, não vi, em nenhum dos órgãos de imprensa que citei, notas complementares que ajudassem os leitores a interpretar os dados. É o caso da frequente utilização do PIB (Produto Interno Bruto) como indicador de referência e da correcção de dados nominais pela aplicação da PPC (Paridade do Poder de Compra).
O PIB, assumido como o valor pelo qual foi transacionada no mercado a totalidade dos bens e serviços produzidos por um país num ano, carece sempre de explicações acessórias para percebermos o significado das taxas percentuais que o referem como indicador. Comparar, como o Observador comparou, os 5,1% do PIB consignados a gastos públicos com a Educação de Portugal com os 6,2% da Noruega ou os 5,6% da Dinamarca, para além de estar errado, como já referi, induz quem lê a uma conclusão grosseiramente incorrecta, que só se resolve se, do mesmo passo, se disser (agora uso dados de 2015) que o PIB português foi 179.369 milhões de euros, enquanto os da Noruega e Dinamarca foram, respectivamente, 348.332 milhões (quase o dobro do nosso) e 266.178 milhões (superior ao nosso em mais de 86 mil milhões). E, sobretudo, se se disser, ainda, que a população daqueles países é … cerca de metade da nossa.
Quanto à PPC, que permite relacionar os rendimentos com os custos de vida entre diferentes países, constato que se fazem comparações utilizando os valores nominais de uns e os valores ponderados de outros, o que, naturalmente, distorce qualquer conclusão.
Tudo visto, será que a passividade generalizada ante tanto martelar de dados é simples consequência de um paradigma de falsa esperança, que transforma o anormal em normalidade institucional?
in Público, 21/09/2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Pot-pourri concursal





CONCURSOS DE PROFESSORES

Deviam ser aquecidos
Deviam ser congelados

Deviam ser cozidos
Deviam ser assados
Deviam ser frigidos
Deviam ser grelhados
Deviam ser estrugidos
Deviam ser guisados

Deviam ser comidos
Deviam ser vomitados

Deviam ser progredidos
Deviam ser atinados
Deviam ser comedidos
Deviam ser atempados

Mas são só repetidos
E muito retardados
Com tanto de pervertidos
Como de viciados

E nós muito bem cozidos
E nós muito mal pagos

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lesmas e cobardes




Não há ser humana que, ao longo de toda a sua vida, não tenha uma atitude, ainda que ínfima, de cobardia. Todos nós, num determinado, num momento mais infeliz, somos capazes de cair nesse registo. Todavia, não é isso que faz de nós cobardes. O cobarde é aquele que faz, por regra, aquilo que aos restantes só acontece muiiiiiiiiiiiiiiiito raramente.
Em geral, todos os cobardes me causam repugnância. Creio que não é preciso explicar. Contudo, há entre os cobardes uma casta que me enoja deveras: a subespécie dos rastejam diante dos que estão no andar de cima e se erguem como feras raivosas sobre os que moram no andar de baixo. A seu lado, até as lesmas ganham dignidade.
Se, um dia, numa situação extrema (sem escapatória), tivesse de escolher entre pisar uma lesma ou um cobarde destes...  adivinhem lá o que eu faria. Bingo!!!

domingo, 18 de setembro de 2016

Guru escolar



Retomo um dos primeiros artigos do Bravio, pela sua renovada e reforçada atualidade. Ia escrever sobre “isto” hoje, mas não vale a pena, uma vez que o texto está muito fixe (modéstia de Jorge Jesus). Só lhe acrescento uma penada (sem o estragar): os professores sofrem de bipolaridade profissional, ou de dupla personalidade, ou de fragmentação do eu...  Fora da escola e dos contextos… (digamos) “oficiais”, são mais ou menos como eram quando eram o que eram; em situação… mais (digamos) “formal”, são… completamente diferentes, para pior, para muito pior. Ficam em stand by, ou seja, em modo de... sobrevivência: desligam o que realmente pensam e ativam a função aquiescente, em piloto automático. O sistema imunitário do ensino está gravemente doente.


     Guru escolar
Os projetos educativos são um espectro. Todavia, são tidos como reais, tornando-se assim reais nas suas consequências. Uma delas, talvez a mais grave, é o iluminismo pedagógico monolítico.
A “eleição” do diretor, a pretexto de um espetro educativo, tem repercussões importantes na mente dos professores, que passam a aceitar, de forma mais ou menos consciente, a ideia de que ele, para concretizar o “seu projeto”, tem o direito de pôr em prática as estratégias que entende serem as mais adequadas. Se a este processo subjetivo juntarmos o ensurdecimento legal que a diarreia legislativa dos últimos anos e a precarização laboral provocaram nos docentes, ficamos com a perceção clara de como estão criadas as condições mais propícias ao surgimento e proliferação de todo o tipo de iluminismos, de experimentalismos e de autoritarismos de gestão pedagógica. Como os coordenadores deixaram de ser porta-vozes de baixo para serem porta-vozes de cima, o diretor pode agora dizer aos diferentes grupos disciplinares como e com quem devem trabalhar, não precisando, para tal, de justificar-se com a Lei, porque ele passou a ser, subjetivamente, a Lei. Portanto, se ele diz, faz-se. E é desta forma que, em muitas escolas do país, os diretores, que foram, em tempos remotos, docentes de uma determinada disciplina, passam a ser, subitamente, especialistas nos melhores métodos universais de trabalho docente. E é assim que as ovelhas, depois de saberem o que o pastor quer, passam a agir como um rebanho acrítico e afónico que o segue montanha acima e montanha abaixo.
Nas escolas, a diversidade pedagógica (entre outras) está em aceleradas vias de extinção. A dita “avaliação externa” (que é, de facto, a “pata externa”) impõe-se aos diretores e estes impõem-se, de forma ainda mais brutal, aos fragilizados professores, que já estão por tudo. Desde que haja uma ordem para fazer, eles fazem. Estão a deixar de ser pedagogos para se tornarem apóstolos de uma incerta e indeterminada pedagogia: a do guru escolar.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ora vamos lá ver



Diz a OCDE que, entre 2012 e 2014, em Portugal, os salários dos professores do ensino básico caíram 30%. Não é novidade.
Os professores do ensino básico, para além do referido decréscimo de 30% do salário, sofreram outros ataques e outros abusos, que agravaram seriamente os danos sofridos (e já nem falo do brutal aumento de impostos a que quase todos os cidadãos foram sujeitos). Atentemos apenas em mais alguns dos rombos profissionais não contabilizados no percentual agora dado a conhecer:
— aumento da carga horária, à boleia das jigajogas da contagem do tempo em minutos, da redefinição das aulas de apoio pedagógico como tempo não letivo, da criação e reforço do dito serviço não letivo de estabelecimento (à custa do tempo destinado ao trabalho individual em casa);
— fim de algumas reduções da componente letiva (como a das horas de direção de turma);
— aumento do número de alunos por turma e de alunos por professor;
— alargamento das atribuições e áreas de intervenção dos professores;
— aumento brutal do volume de trabalho (burocrático e não só) e da pressão exercida (por todos os intervenientes diretos e indiretos no processo educativo e didático).
Os professores, com menos 30% no pecúlio mensal, trabalham agora muito mais, com muito menos autonomia e debaixo de uma pressão socioprofissional jamais experimentada. Concomitantemente, a desconsideração e o desrespeito pela classe atingem níveis vergonhosos, indignos de um país civilizado. É o tal “fazer mais com menos” de que o outro falava.
Perdoem-me os meus colegas e os meus concidadãos, mas dizer que perdemos 30% do nosso salário é dizer pouco. Ainda assim, essa foi, no meu entender, a perda menor. Há coisas que não têm nem preço nem remissão. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Amolador amolado



Amiúde, sinto-me como um amolador de facas e tesouras, um arranjador de guarda-chuvas, rua acima — já não pela calçada, mas pelo asfalto; já não nos pequenos burgos provincianos de outrora, mas nos citadinos bairros burgueses de agora — a solfejar a sua rústica flauta de pã. O acorde está incólume, mas é já coisa musealizada na alma de cada um. Já ninguém quer afiar gumes, já ninguém quer consertar guarda-chuvas. Estamos na era do descartável. Deita-se fora e compra-se novo, com manual de instruções em papel e em versão digital. Contudo — por flirt de nostalgia, com o seu quê de fetiche retro — dá um certo gozo ir à janela, ou à varanda, ver o passado a passar e… espremer uma ideia ténue de uma furtiva lágrima de uma efémera saudade.
Já não sei o que faço, realmente, nesta oficina de blogueiro-artesão da década passada: se abro caminhos ou apenas fecho portas; se ergo pontes ou apenas muros; se conquisto respeito ou apenas inimigos; se desassossego ou apenas entretenho; se semeio esperança ou apenas descrença; se divido mais do que uno; se… defendo ou apenas me defendo. Enfim, se há ainda o que salvar ou se devo apenas salvar-me da...lida desta lide.
Está tudo tão moderno, tão sofisticado, tão sereno, tão pacífico... que até um melodioso solfejo pode parecer barulho! Shhhh!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Inquérito do ComRegras — A minha leituga



Uma vez que já toda a gente “botou faladura” sobre os interessantes inquéritos do ComRegras (uma excelente forma de estar na dita blogosfera docente), chegou a minha vez de apresentar a minha "leituga", ou seja, dizer umas quantas “lapalissadas”, coisas óbvias que já todos terão dito, pensado dizer ou pensado em pensar. Bora lá… de forma direta e chã, para não congestionar o (meu) trânsito neuronal.
PONTO ANTES DA ORDEM DE TRABALHOS — Vamos acreditar que todos foram bons meninos, muito sinceros e que disseram, realmente, o que lhes vai na alma. Assim sendo, há razões para termos (alguma) esperança, pois fica claro que ainda há (alguma) democracia no cérebro de cerca de metade dos nossos diretores. Como diria um certo político, isto é “porreiro, pá”!
MODELO DE GESTÃO — A fatia democrática dos diretores (em ligeira minoria) preferia regressar ao modelo anterior, enquanto os restantes 53% estão muito bem na pele dos todo-poderosos. Os presidentes de Conselho Geral não têm dúvidas: querem empurrar a “dentatura” para fora das escolas. Conclusão: este modelo de gestão não veste bem.
ELEIÇÃO DO DIRETOR — O atual modelo (eleição no Conselho Geral) também fica muito apertado, uma vez que só 27% dos inquiridos conseguem vesti-lo. A outra malta toda preferia um corte menos skinny, mais folgado. Penso que será por causa da transpiração e do constrangimento dos movimentos. Uma fatiota mais folgadita e mais abrangente dá sempre outra desenvoltura.
ATUAL MODELO DE MUNICIPALIZAÇÃO ESCOLAR — É o mal-amado, coisinha reles. Acho que só mesmo aqueles que têm um pé na escola e outro pé (ou costela) na autarquia é que não lhe deram tampo. Tem de ir para o ecoponto.
AUTONOMIA DAS ESCOLAS — Toda a minha gente quer mais autonomia para a sua escola, embora os diretores (93,4%) queiram um pouco mais do que os presidentes de Conselho Geral (84,7%). Why? Mistério!!! Eu confesso não entender lá muito bem este contraditório almejar! A meu ver o pessoal tem mais olhos do que barriga.
CONTRATAÇÃO DE PROFESSORES — Cá está! Já ninguém se entende numa questão que… talvez seja coisa de autonomia: os diretores estão absolutamente divididos (creio que os que querem mais poder são os que querem ajuste direto); os presidentes de Conselho Geral (porque estão na torre de menagem) não têm dúvidas (77,1%): “Pelo sim, pelo não, é melhor a coisa… até ver… ser feita pelo Ministério da Educação!”, pensarão eles.
LIMITAÇÃO DE MANDATOS NOS ÓRGÃOS DE CHEFIA — A fatia mais musculada dos diretores não quer limitações. Compreende-se. O que nos vai valendo (alguma esperança) é que a outra parte lhe pede meças. Os presidentes de Conselho Geral, uma vez mais, não têm dúvidas: são contra os reinados (81,7%). Cheira-me que estes “tipos” (e “tipas”) ou têm mais democracia nas veias ou recebem melhores influências do cargo que ocupam.
EXCECIONALIDADE DA RETENÇÃO — Como diria Orwell, todos são a favor, embora uns mais a favor do que outros (os diretores). Lá bem no fundo, haverá muita malta que quer é o fim absoluto desta “praga”. Ora digam lá… com sinceridade!
CALENDÁRIO ESCOLAR EM DOIS SEMESTRES —Conversa da treta.

PONTO FINAL — A maioria do diretores não se importava nada de manter e/ou reforçar o seu absolutismo (the power is sexy). Os presidentes de Conselho Geral, que elegeram os anteriores e os viram atuar, preferiam seguir um caminho diferente. Tire o Senhor Ministro as suas conclusões.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

It's raining setoras!



Tendo em conta o que está acontecer com a Mobilidade por Doença, sou forçado a fechar as hostilidades de hoje com este velho tema (embora a chuva seja mais de setoras). É uma farturinha!!!
Há mais professoras a “paraquedar” nas escolas do que pokémons nas ruas. Vamos apanhá-las todas?

A Grande Cruzada


Eyes Wide Shut - Stanley Kubrick

Penso não haver ninguém que possa ser contrário à ideia de um plano para a promoção do sucesso escolar, ou de combate ao insucesso, se assim o quisermos perspetivar. Então, se tal plano brotar genuinamente de um coletivo que a ele se dá de corpo e alma… se, for autêntico e transparente… se envolver realmente os alunos como atores principais desse combate… melhor ainda! Infelizmente, não é caso dos milhares de PNPSE que as nossas escolas estão a dar à luz. Foram todos injetados pelo MEC e centram-se, quase exclusivamente, na incompetência das escolas e dos professores. Inseminação artificial.
No letivo transato, por esse país abaixo, foram realizadas inúmeras ações de (de)formação conducentes a esta Grande Cruzada. As primeiras figuras do xadrez das escolas foram chamadas aos atos preliminares, para seguirem, em tempo recorde, os vetores do projeto Fénix, generalizados  a todas as instituições escolares estatais, quer tenham ou não tenham comprado o dito afrodisíaco pedagógico,  cujo princípio ativo assenta em três genes essenciais: a dissolução da autonomia pedagógica do professor, a supervisão das aulas, o fim das retenções. Escusado será dizer que na sua génese mais profunda, está um pressuposto que os mentores destas cruzadas têm bem enraizado: a incompetência da classe docente como causa principal da desmotivação e do insucesso dos alunos. Se a este preconceito adicionarmos o peso das retenções no orçamento de um país pobre, que não se pode dar ao luxo de recuperar realmente todos os alunos (os patamares mais altos do mercado do trabalho estão mesmo muito congestionados), então fica desnuda, completamente desnuda, a alma desta coisa que se apresenta vestida com as melhores das melhores intenções.
Os projetos que as escolas estão agora a dar à luz não resultam de um profundo debate interno, de uma ação aglutinadora de sinergias, de um efetivo arregaçar das mangas de todos os atores (com especial protagonismo dos alunos e dos seus encarregados de educação), mas de algo inseminado em espaços quadrados fechados (povoados por replicadores-mentores e replicadores-executores), onde se fez uma espécie de híbrido de esconjuro e juramento. Os mais miméticos nesse ato elocutório foram bem avaliados, e serão, com certeza, eleitos Mimos do Ano. Os seus projetos darão flores e frutos. Os restantes… penarão até se entregarem, a bem ou a mal.
Dizem por aí as más-línguas que, afinal, a tutela se está a chegar atrás na entrega dos recursos prometidos para a concretização dos milagres. Asseguram que as escolas (nem todas, claro) vão ter de se coser com as linhas que têm (do 79, dizem uns; do 69, dizem outros). Seja como for, não se atrapalhem, porque a êxtase da Grande Cruzada (como facilmente se depreende) não depende de recursos nenhuns (e a politicagem sabe isso muito bem), mas da reza pautal de quem se ajoelhou. Esse é que é o TEXTO. O resto… é pretexto para criar ereção. Será um “sussexo”, pois claro! Ser for baratucho…  muuuuuuuuuuuito melhor!
Desculpem qualquer coisinha!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

MAPE SOA





Mape Soa

“Ai que prazer
Não cumprir um dever”
[Fernando Pessoa]

Serve isto para dizer
Que o post prometido
O que prometi escrever
(sobre o plano milagroso)
Só amanhã será lido
(por vós, claro está)
Ainda tenho de o lapidar
A ver se fica mais jeitoso
Antes de o publicar
Em boníssima hora má

Mas desde já vos asseguro
O nascituro
É a cara chapada do papá
Rosqueiro quanto baste
Fajuto astuto
Cara de traste

Miragens no deserto - Santana Castilho



A análise dos contributos que o sistema de ensino projecta na sociedade portuguesa é complexa e varia com as perspectivas, técnicas ou políticas, dos observadores. Mas há dados que são incontornáveis. Tendo a OCDE por fonte (Education at a Glance), Portugal tinha, em 2014, 57% da sua população com o 3.º ciclo do ensino básico ou menos, enquanto a média da OCDE se cifrava apenas em 21%. Apesar disso, foi no sistema de ensino que a política de austeridade do anterior Governo provocou maior destruição, sem que o actual tenha revertido a situação (no OE para 2016 estão inscritos, para o ensinos básico e secundário, ainda menos 149,9 milhões de euros, relativamente ao que foi gasto em 2015).
Por outro lado, as Estatísticas do Emprego (INE) mostram que, entre 2007 e 2015, foram extintos 1 milhão e 378 mil postos de trabalho para os detentores de habilitação igual ou inferior ao 3.º ciclo do ensino básico, face à redução global de 621.000 empregos. Significa isto que os mesmos postos de trabalho, que antes eram ocupados pelos menos qualificados, foram preenchidos por trabalhadores com maior habilitação. Ganhando estes mais? Não, ganhando menos, já que a remuneração média em Portugal diminuiu 24,5 euros de 2011 para 2014 (Boletim Estatístico do GEP do Ministério da Economia). Conclusão: os patrões aproveitaram a crise para substituir menos qualificados por mais qualificados, pagando menos.
Vêm estas considerações a propósito das reflexões que os começos dos anos lectivos sempre suscitam. Este, que agora arranca, primeiro da total responsabilidade do actual Governo, inicia-se sob duas bandeiras ideológicas: a das novas Novas Oportunidades, que alimentará ilusões de incautos, à semelhança da anterior iniciativa, e terminará queimando, com a mesma duvidosa utilidade, quase 900 milhões de euros (não é erro meu, é previsão do Governo, ínsita no Programa Nacional de Reformas) e a que dá pelo nome de Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, cujos mentores podem conhecer todos os livros do baú das teorias pedagógicas, mas nada sabem das razões determinantes do insucesso escolar.
Quanto ao mais, quê? Negadas liminarmente, há bem pouco, medidas de renovação de um corpo docente envelhecido.
Sem perspectiva de fim o congelamento da carreira docente, que foi decretado em 2005, como transitório e para durar apenas até 31/12/2006, já lá vão 11 anos (relaxada Lei 43/2005).
30.000 professores no desemprego. 508 docentes do pré-escolar sem turma e crianças dessa faixa etária sem educadores suficientes, nos grandes centros urbanos. 7.306 professores, com 10, 15 ou 20 anos de serviço, contratados a prazo a meio da antevéspera do início do ano lectivo, depois de férias na ansiedade do desemprego, com cinco dias para fazerem malas, arranjarem albergue, transferirem filhos ou dizerem-lhes adeus e aos maridos e às mulheres, tudo com aviltante desprezo pelo que Constituição fixa sobre a família (art.º 67.º), sem que, sequer, lhes paguem a partir do primeiro dia de Setembro. Foi melhor que antes? Foi. Mas continuou indigno e podia ter sido diferente.
Municipalização da Educação, a que a maioria se opõe, a avançar de mansinho; diminuição do número de alunos por turma guardada na caixa das promessas; silêncio sobre o modelo de gestão das escolas, sobre a sobrecarga dos curricula, sobre a burocracia asfixiante, sobre as diferenças de tratamento entre os professores do 1º ciclo e os outros e sobre a reorganização do desporto escolar; esponja passada sobre o atropelo às necessidades educativas especiais.
Vivemos ignorando a vida para lá das questões da gestão corrente e do foguetório propagandístico e esquecendo as experiências anteriores, por mais recentes que sejam. Os governos, férteis em demagogia e ignorância para definir o que julgam premente, concentram todas as energias na demolição do que encontram e partem sem o mínimo esforço para discutir e encontrar soluções para os problemas de fundo da Educação. Vivemos assim há duas décadas, sem pensar o futuro, de máquina de calcular em riste, mas máquina que só faz contas para aplicar a uma parte da sociedade e a um determinado tipo de problemas. O sistema de ensino, anémico, cansado e descrente, é uma equação reduzida a estas premissas.
O termo está gasto, mas era mesmo preciso um pacto para a Educação. Não direi um pacto que a convertesse na primeira prioridade (passe a redundância) porque a Saúde e a Justiça, carentes de modelo idêntico, têm precedência em sede de urgência política. Mas a Educação vem à frente se quisermos, seriamente, preparar o futuro a 20 anos de prazo e abrir caminho à mudança cultural partidária que esse desiderato nacional exige. Só um pacto dessa natureza, duradouro, sólido e verdadeiramente nacional nos poderia afastar das constantes capitulações ante populismos fáceis e apetecíveis resultados imediatos, efémeros como miragens no deserto.
In Público, 07/09/2016